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Século 21: a era das mulheres nos negócios

Todos os séculos ficam marcados em nossa memória através de um evento impactante para a humanidade. O século 21 certamente ficará marcado pela libertação do potencial feminino, que há décadas foi reprimido por uma sociedade masculinizada.

Ainda que tenha desprezado as mulheres em sua formação, o capitalismo não conseguirá sobreviver sem um equilíbrio entre o cuidado da mãe a autoridade do pai. Na era das mulheres, é melhor os homens se reconciliarem com seu lado feminino, ou estarão condenados a um ciclo destrutivo.

Os sábios ensinamentos expostos acima partem de um olhar espiritual e humano dos negócios. Eles são de Raj Sisodia, fundador do movimento Capitalismo Consciente e um dos principais gurus corporativos da atualidade.

Nascido na índia e com cidadania americana, Sisodia é ph.D. em marketing e política industrial pela Universidade Colúmbia e professor na Babson College. Com diversos livros lançados, o mais recente se chama “Empresas Que Curam”, que fala sobre companhias que, além de lucrativas, motivam seus funcionários, cativam clientes, e auxiliam de maneira positiva as comunidades em que atuam.

Sisodia compartilha alguns pensamentos que devem ser considerados pelos empresários. Para ele, empresas conscientes são mais eficientes e a felicidade o bem-estar libertam o potencial humano. O resultado disso é o aumento da lucratividade e a expansão das companhias.

Para falar melhor sobre alguns temas do universo corporativo, a Exame realizou uma entrevista com Sisodia através do Zoom.

Confira alguns trechos:

O senhor tem mencionado a necessidade de reconciliação com o passado. O que isso significa?

Não podemos consertar o presente sem remediar o passado. Neste momento, com o movimento Vidas Negras Importam, essa possibilidade está aberta. Se não fizermos isso, estaremos apenas pondo um bandeide no machucado, sem tratá-lo adequadamente. Isso se aplica a todos os lugares: Brasil, Estados Unidos, Oriente Médio etc. Claro, falamos dos africanos trazidos para a América, mas há os povos nativos, escravizados pelos europeus. Os indianos também foram tratados, de certa maneira, como escravos. Existe um legado de feridas abertas que não é totalmente reconhecido. E, se de um lado há uma postura defensiva, dos que alegam não ser responsáveis pela escravidão, de outro há quem prefira negar o impacto dizendo que não é mais escravo. O fato é que há um impacto. Precisamos aceitar a existência desse trauma para poder avançar.

O que é preciso para a sociedade atingir esse nível de aceitação dos traumas do passado que permita a reconciliação?

Outro dia, li algo belo em uma entrevista, uma frase de um afro-americano. Ele disse que os brancos nunca serão capazes de entender o trauma histórico de seu povo. Ao mesmo tempo, os negros nunca serão capazes de entender a culpa ancestral que os brancos carregam. Mas ele afirmou também que nossos ancestrais desejariam que fôssemos capazes de curar essas feridas juntos. A culpa será extinta com o reconhecimento do trauma. Então, será possível seguir em frente. Precisamos lidar com isso de maneira humana. É o que vai permitir a reconciliação. O que está acontecendo agora não vem da raiva ou da culpa, mas da humanidade.

Temos dois processos distintos para a reconciliação. De um lado, o reconhecimento de uma culpa ancestral por parte do opressor. De outro, o perdão de quem foi oprimido. Não é mais fácil reconhecer a culpa do que perdoar?

Sim. No entanto, a capacidade humana de perdoar é enorme. Um dos princípios budistas diz que é preciso testemunhar o sofrimento. Fazendo isso de maneira profunda e significativa, o que emerge é a capacidade de amar. Quando assistimos a George Floyd ser sufocado por 8 minutos e meio, todos nós sentimos, não importa se somos negros ou brancos. Esse testemunho do sofrimento foi muito visceral. Um sofrimento, é verdade, que acontece há muito tempo, mas que se tornou tangível. Desse processo, emergiu um sentimento legítimo, que abre caminho para o perdão. Podemos trazer essa lógica para o mundo corporativo. Nas empresas, hoje, temos um sistema de castas. Há uma classe de trabalhadores ganhando salário mínimo e nenhum benefício, e outra com altos salários e tudo o mais. Não existe consideração pelo sofrimento das pessoas.

O sistema é injusto, então. É possível “curá-lo”?

Podemos criar organizações que curam. Há duas coisas trancafiadas no armário corporativo. Uma são as emoções reprimidas e o cuidado não revelado. Na maioria das organizações, o ideal é que o profissional vista sua armadura e vá para a batalha, sem demonstrar sentimentos. Acredito que o amor não revelado seja o recurso mais abundante no planeta. A outra coisa é o sofrimento silencioso. Todos sofrem. Se pudéssemos olhar para além da armadura, ficaríamos comovidos. Devemos abrir esse armário para permitir a cura.

Por onde se inicia esse processo de aceitação dos sentimentos nas empresas? 

Deve começar pela liderança. O líder deve demonstrar suas vulnerabilidades, seus desafios pessoais e o que está acontecendo em sua vida. E, então, expressar o sentimento de cuidado. Não é preciso de mais nada. É como riscar um fósforo. Todos olham para o líder para saber como se comportar. Quando ele manifesta emoções em público, inicia um tsunami de cuidado.

O movimento Capitalismo Consciente fala de amor nas empresas. Mas não apenas no sentido lúdico. O amor torna as organizações mais eficientes e aumenta o lucro. Há um sentido econômico, também, no conceito de empresas que curam?

Há um aspecto econômico, e podemos demonstrá-lo com uma série de argumentos. Tomo cuidado, porém, para não pôr a carroça na frente dos bois. Há um motivo principal para seguir esse modelo e há a consequência disso. Muitos líderes olham para o Capitalismo Consciente e pensam que podem fazer mais dinheiro desse modo. Se sua motivação principal for o dinheiro, provavelmente não vai funcionar. É como pedir alguém em casamento porque pesquisas mostram que pessoas casadas têm renda maior. Não se faz isso. O mais importante é as pessoas estarem felizes, as comunidades se desenvolverem e, se você consegue mais dinheiro com isso, que sua empresa cresça e tenha capacidade de fazer mais pessoas felizes. O lucro permite a você espalhar seu propósito numa escala maior. Essa tem de ser a energia primária. Do contrário, as pessoas vão perceber que estão sendo manipuladas e se tornarão cínicas. Deixarão de acreditar. É preciso fazer o bem pelo motivo certo.

Mas o sucesso não é medido pelo lucro? Como saber se uma empresa está no caminho certo sem mirar o resultado?

Essa questão tem dois aspectos: o governamental e o corporativo. Quando se fala de países, há indicadores do bem-estar de uma sociedade que vão além do PIB. Podemos pensar em educação e acesso a oportunidades, por exemplo. Nas empresas, precisamos olhar para cada stakeholder individualmente. Não se trata apenas do engajamento dos funcionários, mas de seu estado emocional, espiritual e social. Devemos olhar não só para a lealdade dos clientes mas também para sua qualidade de vida e para os impactos que a oferta da empresa causa. Precisamos de indicadores holísticos que apontem para o futuro. Mas o que temos são números do último trimestre, do último ano. Eles não mostram o que está acontecendo. O fundo 3G Capital é um bom exemplo. Por alguns anos, ele foi capaz de fazer dinheiro, até cair do penhasco. Há um limite para o que se pode extrair das pessoas, antes de começar a tirar sangue.

Em seus livros, o senhor fala também sobre a presença do feminino e do masculino no mundo corporativo. A masculinidade está prejudicando as empresas?

As energias masculinas, na maioria das empresas, vêm da hipermasculinidade. Não é uma masculinidade madura. Dominação, agressão e competição excessiva são alguns dos aspectos. Tudo se transforma em um jogo ou em uma batalha. Ou nos matamos, ou não nos levamos a sério. A masculinidade madura e positiva está relacionada a aspectos como foco, resiliência, força, estrutura e coragem. Precisamos disso. Mas, na ausência do feminino para contrabalançar, o masculino se torna hiperativo. Os Estados Unidos são talvez a cultura mais dominada pela energia masculina no mundo. Isso tem um impacto global, porque tanto o capitalismo quanto a democracia foram, de certa forma, incubados aqui. Nesse processo, deixamos de fora o feminino. Na democracia, inicialmente, nem sequer foi dado às mulheres o direito de votar. Isso levou 140 anos e, mesmo assim, até hoje não houve uma mulher presidente. Vivemos, porém, uma era feminina. O século 21 ficará marcado pelo fim da opressão ao feminino, assim como o século 19 ficou marcado pelo fim da escravidão e o século 20 pelo fim do totalitarismo.

Os homens, principalmente, precisam se reconciliar com seu lado feminino…

Sim, mas para isso é preciso compreender quem você é. Esse será o tema do meu próximo livro. Não quem você é hoje, em relação à sua profissão ou identidade, mas quem era em seu nascimento, no momento em que você era unicamente você. Não há outro indivíduo com a mesma combinação de elementos. Esse é o motivo pelo qual a diversidade é tão importante. É como uma orquestra, em que cada instrumento é único. Não é possível todos tocarem a mesma nota.

Fonte: Exame


Redação Grupo Studio