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Fundos devem ter taxas mais baixas e investidores menores, diz FGV

Em 5 anos a indústria brasileira de fundos deve contar com maior participação do varejo, os chamados pequenos investidores, e taxas de administração menores, diante de um quadro de taxa básica de juros baixa por um período prolongado.

As conclusões são de um estudo do pesquisador associado do FGVcef (Centro de Estudos em Finanças da Fundação Getulio Vargas), Antonio Beltran Katz, com a orientação do professor titular e coordenador do FGVcef, William Eid Júnior.

Foram ouvidos 12 gestores das principais assets do país que, juntas, respondem por 35% de todo o patrimônio líquido do setor. As entrevistas aconteceram em agosto e setembro.

Entre esses profissionais, a maioria (67%) acredita que as taxas de administração dos fundos de ações e multimercados devem ser reduzidas nos próximos 5 anos, seguindo o movimento dos fundos de renda fixa e DI, que cortaram suas taxas à medida que a Selic foi reduzida ao seu menor patamar histórico, de 2% ao ano atualmente.

De acordo com um dos entrevistados “as taxas devem convergir para o padrão internacional, onde se cobra entre 1% e 1,5% de taxa de administração, acrescido de uma taxa de performance quando o ‘benchmark’ (índice de referência) é superado”.

Para um dos entrevistados, este movimento será mais sentido nos fundos multimercados que utilizam o CDI como referência dos rendimentos. Já para os fundos com estrutura mais complexa, a cobrança de 2% ao ano de taxa de administração e 20% sobre os ganhos acima do índice de referência será mantida nos próximos 5 anos, aponta o estudo.

O estudo observa que a participação de investidores do varejo nos ativos sob gestão dos fundos saiu de 30% em meados de 2010 para 11% atualmente, mas 75% dos gestores entrevistados acreditam que essa parcela deve voltar a crescer nos próximos 5 anos.

Um dos gestores, sob condição de anonimato, disse que a indústria de fundos deixou o varejo de lado nos últimos 15 anos. “Nos próximos 5 anos, os grandes distribuidores vão focar em fundos, pois os bancos não precisarão mais emprestar tanto dinheiro, uma vez que a economia não crescerá muito. Com isso, o varejo deverá crescer pelo menos o dobro do que é hoje”.

Para crescer, os fundos de investimentos precisam de ativos suficientemente líquidos para montar e desmontar suas estratégias de forma eficiente. Com apenas cerca de 350 companhias listadas na B3, a bolsa brasileira, e mais de 600 gestoras atuando no mercado brasileiro, há quem aponte o risco de não haver ações em volume suficiente para atender tamanha demanda.

“A indústria de fundos já está grande demais para a liquidez do mercado acionário”, diz um dos gestores entrevistados, enquanto outro acredita que a oferta deve se adaptar, citando as ofertas públicas iniciais de ações (IPOs) e as ofertas subsequentes (follow-on) que estão na fila para irem a mercado.

O lado positivo é que se a oferta de ativos está baixa, há espaço para crescer. “O mercado acionário brasileiro ainda é relativamente pequeno, considerando a bolsa proporcionalmente a nossa economia”, disse um outro gestor que participou da pesquisa.

Com a enxurrada de investidores pessoa física que chegaram à bolsa neste ano – foi 1,5 milhão de novos CPFs até novembro -, a preocupação de um dos gestores é se a alocação desses “novatos” está bem orientada. “Temos que discutir se os CPFs que estão na bolsa estão bem direcionados, se estão bem ajustados ao risco”, diz.

A grama do vizinho

O investidor brasileiro médio tem um percentual muito baixo de sua carteira exposta a ativos no exterior. A taxa de juros básica muito elevada num passado não muito distante e as barreiras para acessar BDRs (Brazilian Depositary Receipts, ações de empresas estrangeiras) não eram exatamente um estímulo para essa diversificação geográfica.

Esse desenho pode mudar nos próximos cincos anos, mas nada significativo, aponta o estudo. Para 50% dos entrevistados esse movimento deverá acontecer de maneira “lenta e gradual” e o crescimento será “muito incipiente”. Outros 25% dos gestores entrevistados acreditam que a alocação do investidor médio no exterior permanecerá baixa. “Existem outros ativos que o brasileiro médio prefere investir, como por exemplo, os fundos imobiliários”, justifica um dos gestores.

Os 25% restantes acreditam que o aumento na exposição de ativos no exterior dependerá de vários fatores, como “a regulação e as taxas dos títulos públicos”. O câmbio atual também surge como um impeditivo “se o dólar não estivesse tão alto, esse movimento seria mais evidente”. O dólar acumula valorização de 30,7% contra o real em 2020.

Caso essa diversificação geográfica de investimentos ocorra, os principais destinos devem ser Estados Unidos e Europa, segundo 80% dos entrevistados, para “fugir da correlação com o Brasil” e “ter acesso a indústrias mais desenvolvidas e proteção cambial”.

A minoria (8%) aponta a Ásia como o destino mais procurado para diversificação devido “a forte ascensão econômica do continente”. Os demais entrevistados veem esse fluxo indo para bonds (títulos de dívida) de países emergentes.

Renda fixa

Quem deve se desenvolver nos próximos 5 anos é o mercado de debêntures, segundo 80% dos gestores consultados no estudo, embora um deles tenha dito que esse setor estava em maior evidência antes da covid-19. Vale lembrar aqui que os fundos de crédito privado passaram por fortes tombos no auge da pandemia no Brasil.

“O desenvolvimento do mercado de debêntures ainda é um mistério, existem vários fatores que podem estar travando sua evolução, como a tributação ou a falta de entendimento por parte do investidor médio da dinâmica da renda fixa”, explica um dos gestores ouvidos. Atualmente as carteiras dos fundos possuem apenas cerca de 20% de alocação em risco de crédito, aponta a pesquisa. “O investidor está com foco em outros ativos”, diz um outro gestor.

Verde e responsável?

As discussões sobre investimentos que atendam a critérios ESG (sigla em inglês para padrões ambientais, sociais e de governança) nunca estiveram tão populares quanto em 2020. Mas apenas metade (50%) dos gestores entrevistados acredita em uma virada de jogo de verdade no mundo dos fundos em relação ao tema.

Para essa parcela, os ativos que atendem critérios ESG serão “uma mudança de paradigma para a indústria”, pois além de refletirem uma preocupação socioambiental constante da sociedade, são cada vez mais “formadores de preço”.

A outra metade dos gestores não acredita em uma evolução tão evidente para esse tipo de investimentos nos próximos 5 anos. “Esse movimento deve começar com investidores institucionais e profissionais, que deverão educar o investidor pessoa física”.

As empresas também precisam reforçar sua cartilha ESG. “O Brasil já desponta positivamente nos critérios S (social) e G (governance/governança), mas precisa evoluir muito no critério E (environmental/meio ambiente)”, diz um dos gestores ouvidos.

Fonte: Valor Investe


Redação Grupo Studio